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Bolsonaro parte para o confronto contra jornalistas e Rede Globo

29/08/2018

 

Até hoje só consegui ver um adversário colocar Jair Bolsonaro em dificuldade com uma pergunta. Foi o jornalista Reinaldo Azevedo, que elaborou no debate da Rede TV uma questão complexa sobre economia, assunto no qual o candidato a presidente assume ser ignorante. Não sabendo o que responder, embromou o quanto pôde, até encontrar um gancho para repetir alguns chavões que trazia decorados.


Nas demais ocasiões, nem concorrentes nem jornalistas acertaram qual o tom que devem adotar para passar uma rasteira em Bolsonaro. O confronto é o território onde ele se sente à vontade. Se amaciam, pode parecer que estão com medo, o que beneficia o capitão. Se atacam, acabam dando oportunidade para que ele devolva na mesma moeda e acabe se sobressaindo.


O Jornal Nacional manteve na entrevista desta terça-feira a linha de tentar emparedar o entrevistado, mas Bolsonaro chegou disposto a fazer o mesmo. Suas primeiras palavras foram para comparar a mesa em que sentou a uma plataforma de tiro.


Bastou ser confrontado pela primeira vez para responder atacando. Passou todo o tempo tentando constranger os entrevistadores e voltando-se contra a própria emissora. Apelou até para questões pessoais e a entrevista quase chegou a um impasse.

 

Inquirido sobre mudanças em regras trabalhistas, que o candidato defende flexibilizar mesmo com perda de direitos dos empregados, questionou os entrevistadores: "A pejotizacao de vocês é legal?". Ao que William Bonner emendou: "Vamos falar de economia?". Pejotização é criar uma empresa (Pessoa Jurídica = PJ) para atuar como funcionário de outra. Isso reduz o pagamento de impostos tanto de quem trabalha quanto de quem emprega. É recurso usual entre os apresentadares da TV, que trabalham por contrato, não com carteira de trabalho assinada.

 

Quando Bonner cogitou o risco de um rompimento com o economista Paulo Guedes, previamente nomeado czar da economia de um governo Bolsonaro, o candidato exemplificou os riscos inerentes a uma união usando o divórcio do apresentador da jornalista Fátima Bernardes.

 

Mais adiante voltou-se contra a própria emissora, dizendo que a Globo vive de recursos da União, por meio de verbas publicitárias milionárias.

 

Se Ciro Gomes mostrara na véspera sua cartilha de tirar o nome do SPC, Bolsonaro também quis exibir um livro que segundo ele promove homossexualidade para crianças nas escolas. E lá se foram alguns momentos de insistência das duas partes, um querendo mostrar e os outros impedindo porque feria as regras da entrevista (parece que será preciso uma revista nos bolsos dos entrevistados antes deles subirem pra bancada).

 

Os jornalistas já demonstravam impaciência com a postura hostil do entrevistado quando Renata Vasconcelos o interrompeu após a insinuação de que ganhava menos que o colega ao lado. Disse que o salário dela não lhe dizia respeito, ao contrário do dele, que como funcionário público, obtém sua remuneração por meio dos impostos que todos pagamos. Mas ressaltou que como mulher não aceitaria ganhar menos para fazer o mesmo trabalho. Discutia-se a questão da desigualdade salarial entre homens e mulheres, que Bolsonaro é acusado de admitir como algo natural, o que ele nega. 

 

Esta intervenção de Renata é considerada o grande momento contra Bolsonaro, que, recortado da entrevista, imediatamente começou a ser reproduzida na internet em êxtase pelos adversários do militar.

 

Ele, entretanto, não se desviou da tática do confronto. Sua última cartada foi atacar a memória do fundador. Quando questionado sobre a ditadura militar, que recusa reconhecer como tal, apelou para editorial escrito por Roberto Marinho a favor do golpe de 1964. Citou de cor o editorial, para argumentar que o jornalista não considerava o período como ditadura. 

 

Algum efeito sobre os inquiridores a postura agressiva surtiu, porque Bonner confundiu-se com o calendário: "Estamos em 2021". 

 

A conclusão é que Bolsonaro desistiu da tática de polir a imagem. A opção é aprofundar a agressividade. Foi o que lhe trouxe até aqui e o objetivo é não perder nada dos cerca de 20% das intenções de voto que possui e que podem lhe garantir vaga no segundo turno.

 

Muitos analistas avaliam que após a entrevista, que seguramente lhe proporcioou o maior público que já teve na vida, pode não ter conseguido novos eleitores, mas não perdeu nenhum dos que já possuía.
 

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