Juiz nega pedido de suspensão de peça que mostra Jesus travesti

01/11/2017

O juiz Benício Mascarenhas Neto, da 11ª Vara Cível e Comercial de Salvador, negou o pedido de suspensão do espetáculo O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu, impetrado no último dia 26 pelo deputado estadual Pastor Sargento Isidório. Na peça, Jesus Cristo é vivido pela atriz, professora e ativista Renata Carvalho, que é transexual.

 

A decisão, no entanto, não libera a exibição da montagem no Espaço Cultural Barroquinha, uma vez que a suspensão da peça ocorrera por decisão da juiz Paulo Albiani Alves, em resposta a outro pedido, impetrado na 12ª Vara Cível de Salvador, assinado por Alexandre Santa Rosa Oliveira, entre outros.

 

 

Ainda assim, a montagem foi exibida no Icba (Corredor da Vitória), já que a determinação judicial proibia a exibição especificamente no Espaço Cultural Barroquinha, administrado pela Fundação Gregório de Mattos. Caso a FGM descumprisse o mandado, pagaria uma multa de R$ 1 milhão.

 

No texto que nega o pedido, Benício Mascarenhas afirma: “Em nenhum momento, percebi qualquer ato que pudesse desqualificar Jesus Cristo, ao contrário, faz uma comparação atual do sofrimento deste magnífico homem, com outro de sexualidade diversa da sua, mostrando a incompreensão e a intolerância humana”, afirmou.

 

O juiz reconhece que, embora tardia, sua decisão precisava se tornar pública: "Eu poderia simplesmente, afirmar que a liminar está prejudicada, posto que, sendo hoje, 30 de outubro de 2017, esta decisão não poderia alterar fatos passados, contudo, diante de tanta polêmica, entendo que devo me expressar sobre o tema, para que não pareça omissão".

 

Em outro trecho, o juiz manifesta-se contra a intolerância:  “Jesus Cristo esteja acima deste tipo de debate, que nada acrescenta e só traz sofrimento e rejeição a quem é discriminado por sua opção sexual. A intolerância, seja de que tipo for, não ajuda em nada”.  Benício Mascarenhas acrescenta: "Destoa de toda e qualquer concepção que se possa ter quanto a Estado de Direito e liberdade de expressão, assim como traduz reduzida compreensão do processo cultural, tentativa de estabelecer verdadeira censura e, mais, individualizada, quanto à definição da nominata dos partícipes de evento e suas manifestações, sem falar no indevido prognóstico quanto ao seu conteúdo. Falta de legitimação e pedido juridicamente impossível".

 

Fernando Guerreiro, presidente da FGM e diretor teatral, afirmou estar preocupado com a onda moralista que cresce no Brasil: "Vivemos um momento complicado: o MASP agora impõe censura de 18 anos a uma mostra de arte e ontem houve proibição a um show de Caetan Veloso. Precisamos ficar atentos para que a intolerância não avance, nem atrapalhe o fazer cultural no Brasil. E há algo muito grave: a decisão proibindo a exibição foi tomada por pessoas que não assistiram à peça".

Guerreiro acrescentou ainda que a onda de conservadorismo é uma cortina de fumaça para acobertar a "maior imoralidade do país, que é a corrupção".

 

Fonte: Correio 24h

Compartilhar
Tuitar
Please reload

NOTÍCIAS RECENTES
Please reload

Sala de Notícia - Todos os Direitos Reservados