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Um naufrágio no meio do sertão

Atualizado: 25 de Nov de 2020

Glauco Wanderley


Pode ser que Colbert vença a eleição. A diferença contra ele foi pequena no primeiro turno, há muito voto voando por aí e nestes dias finais todo tipo de esforço será feito.


Beco na região central da cidade, vitimado pelo projeto Novo Centro, após chuva forte na sexta-feira (20)


Mas é da própria campanha governista mesmo que brotam sinais de que sentem cheiro de queimado. Tentaram impedir publicação da pesquisa do A Tarde que lhes era desfavorável, embora não fosse propriamente uma tragédia. Trocaram a Secretaria de Educação pelo apoio de Eremita Mota, vereadora cuja escassez de preparo para a função é comparável à pouca fidelidade política de quem certa vez conseguiu a façanha de apoiar Zé Neto numa eleição proporcional, mantendo-se aliada a José Ronaldo no plano municipal. Agora, logo após distribuir nota para admitir que ainda "estava negociando" com os dois lados, Eremita irrompeu no cenário ungida na outrora importante pasta, que o prefeito embaraçado decidiu desprezar de vez.


Como disse na abertura do texto, pode ser que Colbert ganhe a eleição. Se isso ocorrer, apenas aprofundará a corrosão e adiará a queda de um reinado que já tem raízes, alicerces e fachadas em péssimo estado.


Não nutro grandes expectativas sobre um futuro governo Zé Neto. Mas o prefeito Colbert e sua equipe ronaldista estão a facilitar-lhe a vida. Se o petista ganhar, precisará se esforçar muito para ser pior do que o que temos visto nos últimos tempos.


Foi assim com José Ronaldo quando sucedeu a Clailton Mascarenhas. A cidade encontrava-se em tal situação de calamidade que o mínimo que se fizesse pareceria bom e receberia aprovação.


Não quero com isso diminuir os méritos do então novo prefeito, que assumindo em janeiro de 2001 executou com louvor o dever de casa. O período inicial de José Ronaldo, os dois primeiros mandatos, demonstraram coisas importantíssimas que merecem ficar registradas como referência para a história da cidade.


Feira de Santana organizou suas contas, jamais desde então atrasou pagamento de funcionários, resgatou a credibilidade junto a fornecedores, conseguiu baixar custos e aumentar receita, executando tudo que era essencial e vivendo do que arrecadava e do que recebia de transferência do estado e da União. Gradualmente até expandiu a capacidade de endividamento e por meio de empréstimos pagos com tranquilidade partiu para a execução de investimentos mais robustos.


Doravante nenhum incompetente ou corrupto poderá alegar que o município não tem como realizar aquilo de que sua população precisa.


Mas tudo envelhece e às vezes envelhece mal. Foi o caso do ronaldismo. O que havia de eficaz deixou de importar tanto diante do agigantamento do que foi varrido para debaixo do tapete.


Finanças saneadas, pagamentos em dia, ruas, muitas ruas, uma cidade inteira, pavimentada com paralelepípedos, deixaram de ter tanto peso diante de problemas empurrados com a barriga e em última instância agravados.


Como sempre, a necessidade de manutenção do poder concorre contra a boa gestão. A necessidade de controlar a tudo e todos para permanecer no comando só admite auxiliares transformados em fantoches, incapazes de propor ou executar qualquer coisa além da vontade cega do comandante em chefe.


O sistema de transporte coletivo que é um insulto à população mais pobre que depende dele, o sistema de saúde do qual quem se serve são empresários e políticos e não os doentes, um centro comercial imundo e infernal para os pedestres, um planejamento com pretensões a moderno que não enxerga um palmo adiante do nariz e recusa o diálogo, e até uma situação vexatória na pavimentação das vias são hoje o retrato de Feira de Santana.


O BRT roda presa, o armengue com nome de shopping para "resolver" o problema dos ambulantes nas ruas e um asfalto que se desmancha com uma única chuva forte deram o tom do período final deste mandato de Ronaldo, digo, Colbert, no comando da cidade.


Se der mesmo Zé Neto domingo, poucas vezes terá caído tão bem a expressão "venceu pelo cansaço".

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