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  • Glauco Wanderley

Sai Bolsonaro e entra Mourão?


Na campanha ele parecia ser aquele que poderia botar a perder a eleição, com suas declarações sobre o 13º, a indolência do índio, a malandragem do negro e o auto-golpe. Agora ele é "a voz moderada". O vice-presidente Hamilton Mourão, a sombra que preocupa Bolsonaro, que nem do assunto pode falar, já que seu poder é tutelado pelas Forças Armadas. Generais como o vice-presidente estão por toda parte no governo e o capitão não ousa contrariá-los. Mourão, ao contrário, contraria Bolsonaro o tempo todo.

A gritante diferença em educação (tanto no sentido doméstico quanto do preparo intelectual), as opiniões pró-democracia, a postura cordial com a imprensa e adversários políticos, as portas abertas para receber todo mundo que não consegue contato com o apavorado Bolsonaro, estão fazendo muita gente vislumbrar a faixa presidencial mudando de dono.

A sugestão surgiu antes do pleito de outubro, na forma de temor. E cresceu rapidamente no primeiro mês de governo quando o despreparo do titular e as encrencas do filho Flávio com Queiroz e as milícias, jogaram dúvidas sobre a viabilidade de Jair.

O jornalista Ricardo Noblat, que tem agido como um provocador nas redes sociais, tuitou, puxando o bloco pró-Mourão presidente:

Outro escriba, Bernardo Mello Franco, escreveu todo um texto elogioso ao vice em O Globo, avaliando que ele "tem se destacado como uma voz moderada".

E Leonardo Boff, insuspeito esquerdista dos mais empedernidos, apressou-se a apoiar a ideia da troca "para salvaguardar a mínima governabilidade e racionalidade no país".

Ao tempo em que outro do mesmo campo ideológico, reagiu preocupado, desaconselhando a adesão ao louvado general: "Mourão não é nada mais do que o arranjo da elite que pode levar o país a 20, 30 anos de inferno", reprovou Renato Rovai, do site Fórum.

Para além do debate da imprensa e da esquerda, fica claro que o "Fator Mourão" pesa na balança quando o guru do bolsonarismo, Olavo de Carvalho, se dedica diariamente a atacar o general. Num tuíte do dia 27, disse que Bolsonaro se extenuava para ajudar Brumadinho enquanto Mourão afagava Jean Wyllys.

Dia seguinte, foi mais longe, classificando como covardia do vice a política de boa vizinhança com os jornalistas.

E em 29 de janeiro bateu no encontro de Mourão com uma delegação palestina.

Todas as mensagens e textos citados a partir do tuíte de Noblat foram do dia 25 em diante, mostrando como a discussão vem ganhando intensidade nos últimos dias.

O próprio Mourão desde a campanha avisou que não é vice decorativo. E estas poucas semanas de governo serviram para comprovar.

Seria ele sujeito oculto do enigmático tuíte publicado em novembro por um dos filhos de Bolsonaro, o incontrolável Carlos, que com seu português precário manifestou-se assim?: “A morte de Jair Bolsonaro não interessa somente aos inimigos declarados, mas também aos que estão muito perto. Principalmente após de sua posse!".


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